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Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer Leave a comment

A história da humanidade tem várias subdivisões. A primeira delas é o que se chama vulgarmente de “pré-história”. Em suma, a pré-história é o período de atividade humana antes do início dos registros escritos.

A partir da primeira forma de registro escrito se compreende então a história. É claro que uma série de achados arqueológicos, objetos, ossos, desenhos e muitos outros podem conter informações significativas sobre a forma de vida de determinada sociedade em determinado contexto e época de existência, mas não se compara à importância que os registros escritos possuem para entender e contar a trajetória de uma população.

A riqueza de detalhes conhecida sobre civilizações como o Egito Antigo, a Grécia Antiga, os grandes impérios como o Mongol, Macedônico, Romano, dentre outros, se deve em boa parte ao fato de que essas populações, mesmo tendo existido há dezenas de milhares de anos, tiveram uma grande produção cultural.

As civilizações ricas em mitologia, símbolos, música, costumes e cultura de uma forma geral se tornaram extremamente reconhecidas e influenciaram as posteriores. Pense no que se conhece sobre a mitologia grega, por exemplo, e como a cultura cristã se espalhou pelo mundo a partir de sua oficialização pelo Império Romano.

Para estudar esse aspecto existem várias ciências e ramificações da história que buscam entender o contexto de cada época através de sua produção de símbolos. A simbologia entende que os símbolos são a forma de um grupo de pessoas se apropriar do mundo ao seu redor.

Uma das frases mais conhecidas no contexto da unificação da Itália, quando foi formado o Estado Moderno da Itália como conhecemos hoje, era “fizemos a Itália, agora precisamos fazer o italiano”. Ou seja, havia de se estabelecer e promover uma série de símbolos nacionais que fizessem dos habitantes daquele território italianos, pessoas com um sentimento de pertença e identidade em comum.

É bem assim, não basta criar uma instituição, seja de qualquer espécie ou objetivo e apenas assim instaurar uma comunidade integrada e que se reconheça participante de uma unidade, com valores, cultura e, claro, símbolos em comum.

Pense que você está no processo de criação de um país. A quantidade de carga simbólica a ser criada e atribuída a esse país é enorme e abrange todas as áreas. Há de se trabalhar em uma identidade visual, em uma bandeira, um brasão de armas, em cores oficiais. Há de se pensar em aspectos históricos, como o resgate de heróis e momentos de grandeza naquele território. Há de se criar, também, uma identidade sonora e é nesse sentido que entram os hinos.

Os Hinos do Flamengo

Os hinos são uma forma de composição musical e escrita antiga, originalmente destinada a tratar sobre histórias épicas e grandes feitos de heróis reais ou mitológicos. Com o tempo, a estrutura do hino passou a ser usada como forma identitária e em muitos cantos religiosos.

Em sua dimensão de identidade, os hinos ganharam grande destaque a partir do século XIX, embora já existissem alguns hinos nacionais anteriores.

O contexto do século XIX era o florescimento do Romantismo. Esse movimento estético e artístico tinha como uma de suas principais características o fortalecimento das identidades nacionais, no cenário de formação dos Estados Nacionais Modernos.

A letra do Hino Nacional Brasileiro, por exemplo, foi composta em 1909, por Joaquim Osório Duque-Estrada, um poeta, diplomata e crítico literário brasileiro. Na poesia, não teve tanto destaque, mas sua obra bebia diretamente na fonte dos poetas do Romantismo e essa influência era clara tanto em seus poemas, como em sua criação mais famosa, o hino nacional de seu país.

A dimensão de símbolo de identidade atribuída ao hino não se limita aos países. Principalmente em países de grandes dimensões, grande população e uma imensa variedade de influências culturais, como é o caso do Brasil, é natural que as pessoas se movimentem e se organizem em instituições dentro da própria instituição do estado nacional e com símbolos e culturas tão fortes e agregadoras quanto as ideias que permeiam a identidade pátria.

A cultura de cada local se apresenta com suas instituições de forte caráter identitário e de pertencimento. No Brasil, poucas entidades tem um apelo emocional e agregador tão intenso quanto os clubes de futebol.

A paixão de um torcedor de futebol e o espaço que um clube ocupa em seu dia-a-dia, em sua formação identitária e cultural e no contexto social e nos grupos em que circula é gigantesco.

Nesse contexto, os grandes clubes brasileiros são como verdadeiros países. Possuem suas torcidas apaixonadas e fieis, comportam milhões de pessoas e possuem uma série de elementos simbólicos, como bandeiras, cores típicas, brasões…

Com um tamanho tão grande, era natural que os clubes de futebol passassem a criar símbolos cada vez mais similares às simbologias nacionais. É nesse contexto em que surgem os hinos dos clubes, extremamente tradicionais, entoados nos estádios e parte do imaginário popular de quem é apaixonado por futebol.

Hino do Flamengo

A “Nação Rubro-Negra”. É como é reconhecida a torcida do Flamengo, a maior do Brasil, com mais de 30 milhões de torcedores espalhados pelo país. Uma verdadeira nação, de fato, a torcida do Flamengo é maior que a população de países europeus como Bélgica, Grécia e Portugal somados!

Bom, é natural então que o Flamengo tivesse de ter seu próprio “hino nacional”. O primeiro hino do Flamengo foi composto em 1920, quando o clube tinha 25 anos de existência. O hino mais conhecido do Fla e cantado pela torcida nos estádios é o de 1945, composto por Lamartine Babo, que também foi responsável pela letra de outros clubes tradicionais do Rio de Janeiro, como o Vasco da Gama, Botafogo, Fluminense e América.

Um dos mais famosos e bonitos hinos do Brasil tem a letra assim escrita por Lamartine Babo:

Uma vez Flamengo,

Sempre Flamengo

Flamengo sempre eu ei de ser

É o meu maior prazer vê-lo brilhar

Seja na terra, seja no mar

Vencer, vencer, vencer

Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer

 

Na regata ele me mata,

Me maltrata, me arrebata

Que emoção no coração

Consagrado no gramado

Sempre amado, o mais cotado

Nos Fla-Flus é o “aí, Jesus”!

Eu teria um desgosto profundo

Se faltasse o Flamengo no mundo

 

Ele vibra, ele é fibra

Muita libra já pesou

Flamengo até morrer eu sou!

 

O hino apresenta uma série de elementos identitário da torcida do Flamengo à época de sua composição e que, de alguma forma, ainda são característicos da torcida rubro-negra, também por conta de estarem eternizados no hino muitas vezes entoado pela arquibancada.

Os trechos “Uma vez Flamengo/ Sempre Flamengo/ Flamengo sempre eu hei de ser” e “Flamengo até morrer eu sou!” trazem o forte elemento de fidelidade da torcida rubro-negra, que sempre lotou o Maracanã, gigante carioca que foi por muito tempo o maior do mundo.

Para ter ideia da importância da torcida na história flamenguista e para a história do Maraca, dos dez maiores públicos em partidas de clubes jogadas no estádio carioca, oito eram em jogos envolvendo o time da gávea.

Em “É o meu maior prazer vê-lo brilhar/ Seja na terra, seja no mar” e em “Na regata ele me mata, / Me maltrata, me arrebata/ Que emoção no coração”, Lamartine traz à tona as origens do clube. O nome do Flamengo é Clube de Regatas do Flamengo. Flamengo é o nome de um bairro no Rio de Janeiro. A atividade original do clube rubro-negro era a regata, esporte muito popular entre os cariocas no século XIX e XX, quando foi suplantado pelo futebol.

“Sempre amado, o mais cotado/ Nos Fla-Flus é o “aí, Jesus”!” é o trecho que mostra o tamanho e a importância da partida entre Flamengo e Fluminense. O embate é um dos clássicos que envolvem o Flamengo no Rio de Janeiro, já que o urubu também faz confrontos cheios de rivalidade com Botafogo e Vasco.

O Fla-flu, no entanto, tem um charme especial, e era um dos clássicos em alta na composição do hino. O uso na composição também revela uma grande admiração de Lamartine Babo pelo clássico entre rubro-negros e tricolores. No hino do Bangu, clube de bairro carioca com o mesmo nome, há um trecho escrito por Lamartine que também cita o clássico: “Em Bangu se o clube vence há na certa um feriado,/ Comércio fechado./ A torcida reunida até parece a do FlaFlu:/ Bangu, Bangu, Bangu!”

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